O mais belo cântico

É de Salomão, está no coração da Bíblia e seu nome é O Cântico dos Cânticos. É o mais belo porque é uma poesia sobre o amor. Apesar de não citar nem uma única vez o nome de Deus, é considerado o livro mais santo da Bíblia. O nome Bem Amado é repetido 26 vezes, ou seja, são 26 modos de amar muito humanos que vão desvelando o amor divino.


O que é o amor? O que é bem amar? Vamos seguindo o itinerário apontado por Salomão nessa história que pode ser percebida em diferentes níveis de realidade e interpretada à luz de diferentes tradições. Pode ser lida como uma história de amor muito humana, entre um homem e uma mulher.


Um homem procura uma mulher, encontra-a, perde-a e reencontra-a novamente. Místicos como São João da Cruz e Santa Teresa de Jesus, que muito amavam esse texto, percebiam nele a história da alma em sua busca por Deus, com momentos de beleza e de intimidade e também com momentos de deserto e abandono.


Para compreender melhor toda a sua rica simbologia é preciso ajuda, vamos recorrer a Jean-Yves Leloup, que propôs seu estudo no livro Uma Arte de Amar para os Nossos Tempos, do qual extraí alguns trechos. “O mais belo cântico de Salomão. Ele me beijará com os beijos de sua boca. Seu abraço me transportará mais alto que o vinho” – cap 1 versículos 1 e 2. A segunda frase contém uma palavra de esperança, a palavra “beijo”, que em hebraico se diz nashak e quer dizer respirar juntos, compartilhar o mesmo sopro e o mesmo odor. Assim, beijar é compartilhar o mesmo sopro.


Na tradição hebraica os rabinos ensinam que um dia meu sopro será consciente do Sopro de Deus e que o seu Sopro respirará no meu. Um dia, Deus beijará a todos, com os beijos de sua boca, o próprio sopro de Deus nos animará. Na tradição cristã, o beijo de Deus é o Espírito Santo, o Pneuma, o Sopro Santo. São Bernardo vê neste versículo a esperança da vinda do Espírito, o Pentecostes, que fará a ligação entre o homem e seu criador. Pode-se ver também neste verso a aspiração do ser humano em conhecer a Unidade. Um dia seremos um só sopro com a pessoa que amamos. O autor afirma que existe um abraço melhor que o vinho. O vinho nesse caso simboliza uma união fusional, pois quando bebemos bastante perdemos a consciência de nossos limites. No estado amoroso pode acontecer uma embriaguez que leva à fusão. O estado melhor que o vinho é o de aliança, onde não se trata de perder-se no outro, mas de se encontrar. Assim beijar alguém é estar à escuta do sopro que lhes é comum sem perder sua identidade.


O verdadeiro amor devolve a cada um sua identidade. Amar alguém é coroá-lo, é conduzi-lo à sua plenitude, pois só entre dois seres completos e inteiros pode existir uma verdadeira aliança. Esse amor segue florescendo quando amamos e respeitamos a diferença do outro e ao mesmo tempo reconhecemos que temos uma unidade. A consciência de que somos a mesma Vida.


Amarilis Plessmann