
Compartilho com vocês algumas reflexões e constatações de um buscador russo anônimo do séc.XIX, que escreveu relatos sobre sua peregrinação em busca da Verdade.
Em suas inquietações nos reconhecemos e em suas conquistas nos inspiramos e nos alegramos. Chega um tempo na vida de um ser humano que ele realmente deseja encontrar a Deus, nada é mais importante e necessário do que isso, sentir dentro de si a Sua presença. É assim que começa a caminhada do peregrino russo.
Um homem simples, provavelmente um camponês, que buscou nos sermões absorver conhecimento e ampliar seu entendimento sobre Deus. Isso, no entanto, se tornou insatisfatório, pois não lhe trouxe a realização pessoal da Verdade. Ele escutou diversas vezes que Deus é Amor, e que “Aquele que permanece no Amor permanece e habita em Deus e Deus permanece e habita nele”. Ficou encantado com isso, mas “como” amar? A palavra amor estava sobre os seus lábios, mas seu gosto não estava no seu coração.
Percebera então que chegara o momento de procurar alguém que fosse erudito e tivesse experiência e assim procurou um “mestre” ou “pai espiritual”. Ele queria descobrir em si o Filho Único que tem seu Espírito voltado ao Único que é Pai. Ele encontrou esse mestre em um monastério russo. O peregrino tinha escutado em um sermão que era preciso orar, até mesmo “orar sem cessar”. Pergunta, então, ao mestre: – “Como orar sem cessar?” Ele responde que a sabedoria e a ciência humana não são suficientes para adquirir o dom de Deus – é a doçura e a humildade do coração que nos dispõem a receber o dom divino. Convida o peregrino para uma prática. Essa prática ensinada pelo monge vem de uma tradição cristã oriental, transmitida de pessoa a pessoa, de coração a coração, a filocalia.
A oração, para os antigos, é uma arte, mais do que uma técnica, é uma meditação que possui um coração. Filocalia literalmente significa “amor pela beleza”, a oração é a arte que nos une à Beleza última, cujos reflexos são as pessoas, a natureza, toda a criação. Orar é passar do reflexo à Luz ou voltar da Luz venerando-a em seus reflexos.
O método de oração transmitido ao peregrino consistiu resumidamente em: sentar-se – calar-se – permanecer sozinho – respirar mais suavemente – fazer a inteligência descer até o coração – ao respirar invocar o Nome, dizendo: ‘Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim’ (Kyrie eleison, em grego) em voz baixa ou simplesmente em espírito – esforçar-se para afastar todos os outros pensamentos – ser paciente e repetir milhares de vezes o exercício. Para esta tradição o coração é o lugar de Deus. Assim a oração pretende despertar o coração para a presença de Deus em todas as coisas.
A invocação do Nome deve ser repetida de forma progressiva, sendo que a partir de 1000 vezes é possível perceber uma diferença no estado. Para os antigos a piedade de Deus é o Espírito Santo, o dom do seu Amor. Pedir a piedade de Deus é pedir que Ele envie sobre nós e sobre tudo o Seu Espírito, para que tudo seja renovado.
“Relatos de um Peregrino Russo” – editora Vozes, prefácio e tradução Jean-
Yves Leloup Está na lista de livros de Harvard qualificado como transformador
de vidas
Amarilis Plessmann